Trinta e duas vítimas mortais confirmados pelo Governo Regional, 68 feridos internados no Hospital Dr. Nélio Mendonça, dezenas de carros arrastados, inúmeras inundações em casas, lojas e grandes edifícios públicos. É este o actual balanço do temporal que atinge o arquipélago da Madeira desde a madrugada de sábado.
O presidente da Câmara do Funchal, Miguel Albuquerque, informou que as situações mais graves têm ocorrido nas zonas altas do concelho do Funchal e, também, no concelho da Ribeira Brava.
No Serviço de Urgências do Hospital Dr. Nélio Mendonça, no Funchal, deram entrada, até às 17h00, 63 feridos, dois dos quais em estado grave, de acordo com o responsável clínico da instituição.
Pedro Ramos, o director clínico e o Presidente do Serviço de Saúde da Madeira, Miguel Ferreira e Almada Cardoso, fizeram o primeiro balanço da situação.
Estes responsáveis garantiram que existe um plano de resposta hospitalar para emergências externas com vítimas que abrange diversos níveis e que "foram todos activados".
"Temos neste momento 63 pessoas que deram entrada no serviço de Urgências com os mais variadíssimos problemas e que obrigou o Hospital a activar todos os níveis de resposta à catástrofe", disse Pedro Ramos.
Destes casos, "apenas duas situações merecem a atenção do bloco operatório, da especialidade de ortopedia e que estão em condições de serem submetidas à intervenção cirúrgica de que necessitam".
No que diz respeito aos feridos, "alguns casos são de hipotermia, pessoas que ficaram soterradas ou foram arrastadas nas enxurradas, pequenas feridas, a maior parte são situações de baixo risco que só vão ficar até domingo por questão de segurança e é difícil regressarem aos seus lares", de acordo com aquele responsável clínico.
"A situação está toda controlada, as equipas de intervenção do Bloco e várias especialidades, todos os colegas, responderam ao apelo de virem para o Hospital e estão de prevenção", garantiu Miguel Ferreira.
As equipas de enfermagem estão super-reforçadas e o pessoal de todos os sectores deram um "apoio excepcional para uma eventualidade de socorro", acrescentou.
Reunião de urgência do Governo Regional
O Governo Regional reuniu-se de emergência na sede do serviço regional de proteção civil onde fez o primeiro balanço dos prejuízos causados pelo mau tempo que está atingiu a ilha e em particular a cidade do Funchal.
Na baixa do Funchal a população viveu momentos de pânico. As águas das ribeiras ultrapassaram os muros de protecção e galgaram as principais pontes da cidade, como na Ponte do Bazar do Povo, a ponte do mercado (que desabou parcialmente) e a ponte junto ao edifício Dolce Vita, onde as águas ameaçam destruir uma rotunda ali construída recentemente.
As zonas altas da Madeira foram as mais atingidas com a chuva persistente a provocar derrocadas nos Moinhos, Três Paus, Trapiche (onde morreu uma senhora idosa alarmada com o desabar do telhado da sua casa provocado pela queda de uma grua).
A baixa da cidade está intransitável ao trânsito automóvel, com a Avenida do Mar e a zona velha da cidade completamente alagadas bem como a Avenida Arriaga, a rua Fernão de Ornelas.
O shopping Dolce Vitta foi evacuado e o parque de estacionamento de vários andares está completamente inundado. O mesmo ocorreu no Centro Comercial do Anadia, onde a água transbordou no estacionamento.
A via rápida Ribeira Brava - Machico está interrompida em variadíssimos pontos, pelo que a circulação está praticamente intransitável.
O presidente do Governo Regional da Madeira anunciou que a prioridade do executivo regional é repor tudo como estava mesmo que isso implique suspender e adiar obras planeadas e previstas no programa do Governo.
Um dos principais problemas com que os madeirenses estão confrontados são as comunicações cortadas em muitos locais devido ao aluimento de terras e onde Jardim anunciou já estar criada uma "task force" pela PT no sentido de a mais breve trecho as repor em pleno funcionamento.
As vias de acesso, outra das prioridades do executivo, têm de ser rapidamente reabertas, com as pontes que cairam a serem substituidas numa primeira fase por pontes provisórias cedidas e colocadas pelas forças de engenharia do exército português.
Aos muitos desalojados Alberto João Jardim deixou uma palavra de incentivo ao anunciar que já foi decidido lançar um concurso rápido que vise o realojamento de todos os que devido ao mau tempo se viram sem casa para habitar.
O governo regional fará entretanto, um balanço com uma extensa "memória descritiva" para que fundamentadamente possa junto dos órgãos da União Europeia em Bruxelas, solicitar apoios financeiros para a reconstrução.
No que toca à segurança, PSP garantirá que nas zonas mais atingidas não haja um aumento das actividades criminais e procederá ao apoio dos automobilistas na escolha de vias rodoviárias alternativas às encerradas.
Não tendo ainda tomado qualquer posição em relação à eventual abertura das aulas na segunda-feira, o governo regional está no entanto, sensibilizado para a necessidade de que os madeirenses tenham confiança para se poderem apresentar nos seus locais de trabalho com a garantia de que os ses filhos ficam nas escolas.
Jardim que considerou que nestes momentos não há a hipótese de "se brincar às politicas" e seria mesmo criminosos que seja quem fosse o fizesse, anunciou a solidariedade da Presidência da República e do Governo que disse para além de disponibilizar apoios financeiros, levava para o território meios humanos especializados tais como bombeiros e engenheiros militares para ocorrer ao imediato nas necessidades da ilha.
Curral das Freiras isolada
Curral das Freiras, freguesia do concelho de Câmara de Lobos, está isolada desde a manhã de acordo com o presidente do município local, Arlindo Gomes.
A grande preocupação das autoridades, neste momento, é saber a situação dos cerca de quatro mil habitantes de Curral das Freiras.
"Não temos um ponto da situação do que se passará nesta freguesia porque está completamente isolada", indicou Arlindo Gomes.
Aquela freguesia situa-se "numa zona muito montanhosa e muito acidentada" da ilha, pelo que "existe algum receio que possam haver situações menos agradáveis", adianta o autarca.
"Estão no terreno todos os meios disponíveis" garante, incluindo de empresas privadas que estão a colaborar com o município de Câmara de Lobos na desobstrução de alguns caminhos.
"Há muitas casas e estradas completamente destruídas, mas, neste momento, não tenho informação de vítimas mortais" no concelho, disse o autarca.
O pior já terá passado
O Instituto Nacional de Meteorologia, diz que "o pior já terá passado" e prevê que a tarde não seja tão pluviosa como foi a manhã, designadamente entre o período compreendido entre as 09h00 e as 10h00 horas da manhã, período em que choveu 52 milímetros no Funchal e 58 milímetros no Pico do Areeiro, segundo ponto mais alto da Região.
Os ventos muito fortes que chegaram a atingir os 100 quilómetros das zonas altas e a forte ondulação marítima contribuiram para o agravamento da situação.
Governo agarante apoio às vítimas
O primeiro-ministro, José Sócrates, declarou estar "absolutamente consternado" com a destruição e as vítimas mortais provocadas pelo temporal que assola a Madeira adiantando que o Governo "tudo fará" para apoiar esta região autónoma.
"Estou absolutamente consternado e desolado com as imagens que pude observar sobre as consequências do temporal na Madeira", declarou José Sócrates, à margem da reunião da Comissão Nacional do PS.
O líder do governo central expressou "toda a solidariedade ao Governo Regional da Madeira, à Câmara Municipal do Funchal" e garantiu que da parte do seu executivo haverá "toda a disponibilidade do Governo da República para cooperar na resposta à situação".
"Quero expressar a minha solidariedade, a minha profunda mágoa e deixar uma palavra de coragem a todos aqueles que foram afectados", disse.
Sócrates vai à Madeira
O primeiro-ministro José Sócrates, acompanhado do ministro da Administração Interna, Rui Pereira, partirá de avião para a Madeira logo que as condições climatéricas permitam que o avião aterre nesta região autónoma. O ministro da Administração Interna sairá de Lisboa do Aeroporto militar do Figo Maduro no Falcon e fará escala no aeroporto Sá Carneiro onde apanhará o primeiro-ministro que participou durante a tarde num encontro com militantes do Porto do PS enquanto secretário-geral do partido rumando depois para a Madeira onde aterrará logo que as condições climatéricas o permitam.
"É um sinal claro que estamos com os madeirenses neste momento difícil. Tudo faremos para que a resposta à situação seja encontrada numa cooperação entre os governos da República, da Região Autónoma e da Câmara do Funchal", frisou José Sócrates.
O Instituto de Meteorologia elevou para Vermelho o nível de alerta para a Madeira, o máximo.
Açores apoiam
Começam a chegar entretanto ao Governo regional da Madeira missivas de apoio dos mais variados quadrantes.
Depois de o Governo pela voz do primeiro-ministro, José Sócrates, ter garantido todo o apoio da governo central, também Carlos César líder do governo regional da outra região autónoma portuguesa, os Açores, fez chegar a Alberto João Jardim uma mensagem de consternação e apoio.
Para além, de disponibilizar a sua colaboração e solidariedade pessoal e institucional para fazer face ao mau tempo na ilha da Madeira, Carlos César afirma-se "consternado" com as consequências das fortes chuvas que assolam o arquipélago da Madeira e que já provocaram, pelo menos, cinco vitimas mortais, vários feridos e danos materiais avultados.
"Quero, por este meio, deixar-lhe a expressão da minha solidariedade pessoal e institucional e lamentar as vítimas mortais e danos ocorridos", escreve o Presidente do Governo Regional dos Açores na carta.
Carlos César solicitou ao seu secretário Regional da Ciência, Tecnologia e Equipamentos para que contactasse o homólogo madeirense visando oferecer a colaboração do Governo açoriano "em tudo o que for considerado útil".
Situação evidencia erros de ocupação do território - denuncia a Quercus
A Quercus vem na sequência dos últimos trágicos acontecimentos na Madeira, denunciar que o caos provocado pelas fortes chuvas no arquipélago é também "consequência dos inúmeros erros de ocupação do território" que se têm vindo a registar ao longo dos anos naquela ilha.
"É uma situação que obviamente decorre da forte pluviosidade. Mas existem inúmeros erros de ocupação do território que se têm vindo a registar ao longo do tempo e que agora demonstram as suas consequências", afirmou Hélder Spínola, dirigente nacional da Quercus.
O dirigente nacional da organização ambientalista, que está na Madeira, lamentou o facto de "os cenários mais graves" para os quais várias entidades, incluindo a Quercus, alertaram se estejam a confirmar.
A "situação catastrófica" que se vive actualmente no Funchal e em alguns concelhos limítrofes devido às fortes chuvas é também uma consequência das "construções junto aos leitos das linhas de água, dos lixos, terras e entulhos que têm sido despejadas dentro das ribeiras e da impermeabilização cada vez maior dos solos", diz Hélder Spínola.
"Estes são factores que agora nesta situação mais delicada acabam por significar, infelizmente, perdas de vidas humanas e uma destruição enorme de bens materiais", criticou.
As "ribeiras estão quase todas a galgar, há pontes destruídas e muitos carros arrastados", explica o dirigente da organização ambientalista.
Para a Quercus é fundamental que "de agora em diante se faça uma revisão da forma como ordenamos o território" e se assegure que "tudo não continue na mesma, como já aconteceu no passado". Por outro lado, é preciso "repensar a estratégia que tem vindo a ser seguida de ocupar os espaços, independentemente de eles estarem em zonas de risco", continua.
"É fundamental que não se continue a fazer isso. Existem situações que vêm de erros do passado, mas presentemente continuam a ser desenvolvidas obras e construções nessas mesmas circunstâncias", criticou.